James acordou com o som distante de sinos.
A luz da manhã filtrava-se por vitrais azuis, lançando sombras dançantes sobre as paredes de mármore da enfermaria da Torre de Essência. Ele tentou se sentar, mas uma dor surda percorreu lhe o peito.
— "Calma," disse uma voz suave.
Lady Kaelya Altheris. Estava trajando vestes cerimoniais, cabelos presos em tranças de prata e olhos como os de uma águia que observa sem pressa — mas nunca deixa de ver.
— "Você dormiu dois dias inteiros. Nenhum dos candidatos anteriores suportou tanto."
James a encarou, confuso. A memória do último teste ainda reverberava como trovões dentro de sua mente. As visões, os reflexos, a escolha.
— "Foi real?" — ele perguntou.
Kaelya sorriu, com aquela expressão entre enigma e fardo.
— "Mais do que gostaria. A Torre não mostra o que você quer ver. Ela revela o que tenta esconder de si mesmo."
Ele olhou para as próprias mãos. As marcas do Coração estavam ali — linhas negras, como raízes vivas, correndo sob a pele. Sentia a magia pulsar, mas diferente… mais silenciosa. Como um rio profundo que ele agora sabia navegar — ainda que mal soubesse onde queria chegar.
Ao sair da enfermaria, os corredores da Torre estavam mais cheios do que antes. Alguns acólitos cochichavam. Outros apenas desviavam o olhar. Havia algo no ar.
Respeito? Medo?
— "Seu nome corre depressa entre as muralhas," comentou Kaelya, acompanhando-o. "James Hunter. O plebeu que venceu os três testes. O bastardo que veio do nada. Aquele que carrega o Coração."
— "E o que estão dizendo?" — ele perguntou, já sabendo a resposta.
— "Alguns querem que você seja uma arma. Outros, uma ameaça. E alguns… lembram de outro Hunter que tentou reescrever o mundo."
James parou. O nome ainda era um enigma. Seu pai. Um guerreiro renegado? Um traidor? Um salvador? As respostas o cercavam, mas nenhuma queria ser tocada.
No grande salão da Torre, um círculo de místicos o esperava. Vestes solenes, olhos antigos. Atrás deles, estandartes da Guilda Arcana, da Casa Altheris… e, pela primeira vez, um assento vazio à sua frente.
Kaelya apontou.
— "Aquele lugar é seu, se quiser. Um posto de aprendiz arcano. De onde poderá estudar… ou se preparar."
James não respondeu de imediato. Caminhou até o centro da sala. O silêncio era absoluto.
Então, com firmeza, falou:
— "Aceito a posição. Mas não serei servo de ninguém."
Um murmúrio percorreu o salão.
Kaelya sorriu, quase imperceptível.
— "Então será observado de perto. Por aliados… e por inimigos."
Ao longe, um mensageiro atravessava os portões da cidade.
Trazia notícias da fronteira norte.
Uma nova ameaça surgia. E com ela… o nome de um homem: Kael Meryon.